Trabalhos que eu nunca mais terei
Logo que eu publiquei o post anterior, o primeiro desse blog e o primeiro em muitos anos, eu fiquei preocupado de estar seguindo formatinho de LinkeDisney.
Reli o texto pra ver se eu não tava extraindo aprendizados e liçãozinha de moral. Até acho que não fiz, mas vou fazer mais esforço pra escrever no jeito mais clássico: contar história e pronto. Sem conclusão ou perguntinha no final.
Então hoje eu só vou contar um causo, de quando eu fiz tradução num evento.
Eu morava no interior de São Paulo uns doze anos atrás, já trabalhando na minha área. Naquela época eu tinha voltado a tocar guitarra, estava fazendo aulas e praticando bastante em casa. Eu frequentava uma escola que também era loja de instrumentos, conhecia o dono, fazia minhas manutenções ali.
Num fim de tarde eu descia a principal avenida da cidade voltando do trabalho, e um carro encostou ao meu lado. De dentro, o dono da escola me chamou e perguntou:
Você fala britânico?
Ele estava começando a trazer guitarristas pra fazer workshops na cidade. O primeiro era um fantástico guitarrista britânico, o Guthrie Govan. Se você assistir ao especial do Hans Zimmer no Netflix, é aquele guitarrista lá.
Pois o dono da escola não sabia inglês, e precisava de alguém pra estar junto dele no dia que o Guthrie viesse, e fazer tradução durante o evento. Eu aceitei.
No dia do evento eu acordei meio gripado. Ou melhor, muito. Do tipo que eu não sairia de casa se fosse hoje em dia. Mas naquele dia eu comprei uma cartela de comprimidos e fui. Recebemos o Guthrie, levamos pra almoçar (ele ficou chocado ao me ver comer coração de galinha), deixamos ele no hotel.
No meio da tarde buscamos o cara no hotel e levamos pra testar o som no local do evento. Ele estava insatisfeito porque o contrato dele especificava alguns tipos de amplificador, o dono da escola não leu e colocou pra ele o melhor Mesa Boogie que tinha... mas que o Guthrie odiava.
Enquanto isso eu comecei a bater um papo com outros guitarristas, brasileiros, que estavam por ali. Alguns iriam participar do evento, outros tinham vindo de São Paulo só pra assistir. Conversei um bom tempo com um deles, o Maurício Fernandes, que inclusive foi dar uma volta comigo pra eu comprar mais remédio de gripe. Na volta, ele pediu pra eu levá-lo até o Guthrie porque queria dar um CD pra ele.
Desculpa, mas eu não aceito CDs de ninguém. Eu viajo com pouca bagagem, não teria como carregar tudo que me dão.
O Maurício engoliu seco, muito desapontado. Nem ficou pro evento. Eu peguei o CD pra mim, achei ótimo. Dá pra entender o lado do Guthrie pra não aceitar... mas poderia ter pegado e "esquecido" no canto depois, né? Ou jogado fora, mesmo. Um cara veio de outra cidade pra falar com você, custa nada um pouquinho de gentileza. Mas habilidades sociais ou a sensibilidade nesse tipo de situação também não é todo mundo que tem.
O workshop foi muito bom. O Guthrie é realmente um dos maiores guitarristas neste planeta.
A parte de traduzir aconteceu bem, mas é muito difícil. O produtor da turnê, um brasileiro que se não me engano se chama Luciano, estava junto e dividiu a tarefa comigo, revezando. Ele vinha fazendo esse trabalho sozinho e ficou feliz por dividir também.
No meio do evento ainda vieram correndo atrás de mim porque apareceu um gringo na bilheteria dizendo que era amigo do cara, era de um lugar do oriente médio e estava em turnê no Brasil, pedindo pra entrar. E eu como tradutor no meio da negociação.
Entender e falar outra língua já são coisas não-triviais, mas dá pra aprender e ficar bom com o tempo e a prática. Tradução é um outro nível de dificuldade. Porque quando eu assisto a algo em inglês eu tento entender em inglês, não traduzo na minha cabeça. Mas pra traduzir pra outras pessoas, você tem que entender, traduzir e armazenar, e ficar repetindo esse ciclo de troca de línguas, que é muito difícil.
Taí um trabalho que nunca mais nem tentarei. Todo respeito pra quem faz.