O trabalho que eu ainda tenho, parte 2

Eu, vestindo um macacão de piloto de corrida, na frente de um painel com imagens de pilotos e corridas de kart. Eu estou segurando um capacete.
Não, eu não sou piloto, mas talvez eu tivesse gostado.

Terminei o post anterior com o fim da faculdade depois de 6 anos. Neste eu vou passar brevemente por cada trabalho com uma história interessante sobre cada um.

Meu primeiro emprego foi em Campinas. No segundo dia, me mandaram pro escritório do cliente e o meu chefe me disse que ia me apresentar como o novo especialista em Java webservices para esse cliente. Eu nunca tinha visto webservices na minha vida. Deu certo.

Mas menos de um ano depois eu fiquei de saco cheio das muitas horas extras e quilômetros de estrada e fui pro INPE - pra trabalhar com o então novíssimo supercomputador Tupã. Ali eu aprendi Django e construí um site pra acompanhar simulações que o meu grupo de pesquisa rodava, e foi assim que virei co-autor de um artigo sobre a primeira participação Brasileira com modelos acoplados no painel de mudanças climáticas.

Mudanças climáticas existem. Se alguém falar merda perto de mim eu viro as costas e saio andando.

Essa minha transição pro Django foi o que me levou pra OneTwo, uma startup de São Paulo que tinha sido selecionada num programa de aceleração que incluía um período no Vale do Silício. Foi assim que eu vim aos EUA pela primeira vez e resolvi que eu queria muito, eventualmente, me mudar pra essa desgraça.

Graças ao trabalho nessa startup eu pude apresentar uma palestra sobre o que não fazer numa aplicação web (como fazer toda sua API em POST enviando as credenciais na payload em toda chamada porque você não sabia como fazer isso com headers). Foi uma época difícil mas muito legal.

Quando a gente fechou eu me juntei a uma empresa que foi um pesadelo. Um time incrível fazendo projetos ridículos que estavam muito na cara que não davam dinheiro nenhum- e menos de um ano depois tava todo mundo na rua. Em Junho serão 10 anos, ainda não recebi minha rescisão.

Mas por uma sorte incrível, na semana desse layoff teve um email na lista de desenvolvedores Python sobre vagas que incluíam uma eventual relocação para Palo Alto.

Eu tentei, sem muita expectativa, e ao mesmo tempo comecei a trabalhar no braço tecnológico de uma grande rede varejista brasileira, que desde então se expandiu pra caramba e atualmente é gigante. Mas só fiquei lá um mês, porque fui chamado pela tal empresa estadunidense.

E cá estou, depois de dois anos no Rio de Janeiro, e sete anos completos de South Bay Area.

Quando eu escolhi Engenharia de Computação no vestibular eu queria trabalhar com hardware. Entrando na faculdade a gente descobriu que era uma armadilha. Mas acabei gostando de software e tamo aí, esse é o trabalho que tive e tenho, pelos últimos 16 anos.

Uma profissão que, como tudo no mundo ultimamente (redes sociais, chocolate, café) está sofrendo com o processo de merdificação massiva do capitalismo tardio.


No último fim de semana eu fiquei horas implementando um bot de telegram num projetinho pessoal. Contei isso pra alguns colegas de empresa e um deles falou que se admira de como alguém ainda consegue programar fora do horário do trabalho.

Minha resposta é que eu fiz isso justamente porque eu não programo mais no horário de trabalho. Eu só sou babá de IA.

Foi muito bom escrever CADA. LINHA. DE. CÓDIGO. Zero frustração. Zero raiva. Apenas experimentação e descoberta. Como um adolescente.