O trabalho que eu ainda tenho

O trabalho que eu ainda tenho
Eu em pé, braços cruzados, próximo ao supercomputador tupã. O supercomputador parece uma sequência de portas de geladeira, pintadas em um azul muito escuro, onde se vê o nome tupã e alguns raios.

No post anterior eu falei de um trabalho que eu fiz uma vez pra quebrar um galho. Foi uma experiência até divertida e rendeu história pra contar. Eu tenho mais alguns trabalhos que espero nunca mais ter pra compartilhar, mas resolvi contar do que ainda tenho primeiro.

E é até um pouco de terapia também porque hoje em dia tá difícil manter a motivação.

Quando eu estava terminando o ensino médio eu não fazia a menor ideia do que eu queria ser quando crescer. Jogar futebol pelo jeito já não tinha rolado. Vez ou outra eu falava de medicina ou direito, mas mais por influência dos outros ("ter uma profissão que dá dinheiro!") do que vontade própria.

Só ali na última metade do último ano do colégio que eu percebi que eu queria fazer computação. Eu adorava usar o computador, mas nunca tinha tentado nada muito avançado. Mas nessa época eu comecei a ficar curioso por programação, e li tudo o que achei sobre o assunto nas várias enciclopédias de jornal que a minha família colecionou. Tudo o que achei não era quase nada, porém.

Uma delas tinha um exemplo de programa em BASIC com poucas linhas de coisas simples como leitura, escrita, e contas básicas (mas nada de laço iterativo, por exemplo). Eu tentei fazer isso funcionar no DOS e deu certo, muito por sorte (BASIC é interpretado e tinha suporte nativo) porque se fosse uma linguagem compilada eu nem saberia o que fazer.

E aí eu resolvi me inscrever no vestibular pra Ciência da Computação na UFMG. Só que não me inscrevi, porque eu estava numa depressão terrível e a famíla numa pindaíba danada. Na escola eu disse que não me inscrevi porque na verdade eu ia tentar Engenharia de Computação no ITA e no IME.

Também não me inscrevi. Eu teria falhado miseravelmente. Ou pior, poderia ter até passado. Eu falei que ia fazer na USP. Em São Carlos tinha um campus, eu achei pesquisando nos computadores da biblioteca da escola.

Mais um pra lista das inscrições que eu não fiz. Ainda bem, também, porque se eu tivesse feito Fuvest (ou UFMG) em 2003 eu não teria assistido o Cruzeiro ganhando do Paysandu naquele 30 de Novembro. Aí eu resolvi fazer UFSCar, de São Carlos também.

Pra essa sim eu me inscrevi. Graças a ajuda de um amigo da família e de um tio. Os dois me doaram o valor integral do boleto. Um deles, na prática, pagou as compras do mês, tava foda.

Coisa de velho aqui: eu fiz ENEM (ainda estava começando) mas esse exame não fazia parte do processo seletivo de universidades públicas ainda. Eu tive que pagar, se não me falha a memória, uns 380 reais de inscrição só pro vestibular da UFSCar, o que era tipo um salário mínimo e meio.

Deu certo. Não de cara, porque me classifiquei em 157 e eram 30 vagas. Mas a lista rodou e acabei entrando, e aí é história. Lá se vão 22 anos do dia que meu pai quebrou um ovo na minha cabeça no meio da rua, na frente da escola da minha irmã, e me mostrou um TELEGRAMA avisando que eu estava convocado.

Daí foram 6 anos pra me formar, e 16 anos de carreira desde então. E eu ainda acho que a minha "escolha" foi mais "vai isso aí mesmo" do que um "isso é o que eu quero fazer!".

Bem, parece que essa última frase não vai me ajudar muito com a motivação que eu tô precisando. Mas tem mais coisa legal pra contar: o depois é que importa.

Vou continuar num próximo texto. Isso aqui já está maior do que eu esperava. E eu ainda nem estou perto de contar como eu fui parar lá naquele supercomputador da foto e virar co-autor de artigo no painel de mudanças climáticas da ONU.